Práticas Integrativas e Complementares

Publicado por Heric Lopes em

A campanha do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) sobre as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) diz:

Em 1972, visando garantir o mais alto grau de saúde para todos os seres humanos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) criou o Departamento de Medicina Tradicional a fim de encorajar os países membros a utilizarem abordagens mais naturais, seguras e custo-efetivas, devido aos resultados positivos observados nos indicadores de saúde dos países que utilizavam as Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas. No Brasil, tais abordagens foram institucionalizadas no SUS com o nome de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS).”

COFFITO (2019)

Definições importantes para contextualizar a campanha das PICS em saúde pública:

EFICÁCIA E EFETIVIDADE

Eficácia é a capacidade de produzir um efeito (p. ex., reduzir a pressão arterial). A eficácia pode ser avaliada com precisão apenas em condições ideais e é medida sob a supervisão de um especialista em um grupo de pacientes com maior probabilidade de ter uma resposta a uma terapia, como em um ensaio clínico controlado (Lynch, 2016).

Efetividade difere de eficácia pelo fato de levar em conta o resultado de uma terapia no uso prático; muitas vezes, uma terapia que é eficaz nos ensaios clínicos não é muito efetiva na utilização real. Por exemplo, um fármaco pode ter alta eficácia para reduzir a pressão arterial, mas pode ter baixa eficácia porque causa tantos efeitos adversos que os pacientes param de tomá-lo (Lynch, 2016).

A efetividade também pode ser mais baixa do que a eficácia se os profissionais inadvertidamente prescreverem a terapia de forma inadequada. Assim, a efetividade tende a ser mais baixa do que a eficácia (Lynch, 2016).

Assim, eficácia é uma propriedade intrínseca de uma conduta médica e efetividade é o resultado da interação do tratamento com o ambiente em que ele está sendo aplicado (Correia, 2012).

⚠️ Nem sempre a eficácia se traduz em efetividade. Mas não por culpa da terapia, mas sim por culpa do sistema de utilização ou por culpa do profissional.

PRÁTICA CONVENCIONAL

É a prática realizada por profissionais treinados nas ciências da saúde como médicos, fisioterapeutas, psicólogos e enfermeiras. A prática convencional também pode ser chamada de alopática, ocidental, ortodoxa ou tradicional.

A prática convencional é fundamentada em evidências científicas como os ensaios clínicos aleatórios controlados, revisões sistemáticas desses ensaios, diretrizes para tratamento clinico (Clinical Guidelines) e declarações de consenso (Consensus Statements).

Os tratamentos selecionados pela prática convencional devem ser priorizados e constituir a maior parte do tratamento do paciente. É o necessário, o que DEVE ser prescrito e promovido SEMPRE.

PRÁTICA COMPLEMENTAR

São tratamentos que COMPLEMENTAM a prática convencional, entretanto NÃO são considerados necessários e NÃO SUBSTITUEM o tratamento convencional.

Esses tratamentos não possuem evidências cientificas de efetividade, ou as evidências demonstram que sua efetividade NÃO é superior ao tratamento PLACEBO (Beedie et al., 2017).

PRÁTICA ALTERNATIVA

São tratamentos que SUBSTITUEM o tratamento convencional, porém SEM evidências de sua efetividade, ou cuja a efetividade NÃO supera o tratamento PLACEBO (Beedie et al., 2017).

Essa prática pode impedir que o paciente acesse tratamentos MAIS efetivos, sendo assim danoso ao paciente (Beedie et al., 2017).

PRÁTICA INTEGRATIVA

São os tratamentos que COMBINAM as práticas convencionais com as práticas complementares que demonstram-se SEGURAS e EFETIVAS.

Essa prática enfatiza tratamentos holísticos focados no bem-estar do paciente, tratando a pessoa “como um todo” ao invés de uma estrutura ou órgão específico. Geralmente essa prática incluem aspectos mentais, emocionais, funcionais, espirituais, sociais.

“As PICS não concorrem com os tratamentos convencionais, apenas complementam e possibilitam um olhar integrativo na saúde.”

COFFITO (2019)

AS OPÇÕES DE PRÁTICAS COMPLEMENTARES E ALTERNATIVAS SÃO SEGURAS?

Segundo a National Center for Complementary and Integrative Health (🇺🇸) não se sabe muito sobre a maioria das terapias alternativas e complementares e a investigação científica caminha lentamente por algumas razões:

  • financiamento: dificuldade em captar recursos para a produção de ensaios clínicos;
  • problemas para encontrar instituições e pesquisadores para trabalhar nesses estudos;
  • problemas de regulamentação das terapias.

⚠️  É anti-ético e improdutivo promover tratamentos complementares e alternativos ASSUMINDO que o PROVÁVEL mecanismo de seus efeitos seria o placebo, MESMO na presença de evidências sugerindo que placebos abertos (open label placebos) – quando você e o paciente sabem que é um placebo – podem ser efetivos. Existe sérios desafios ÉTICOS em relação à fraudes e danos ao paciente (Beedie et al., 2017).

FISIOTERAPIA INTEGRATIVA

Teoricamente, a prática da “Fisioterapia Integrativa utilizaria a prática convencional (baseada em ciência) ASSOCIADA às práticas complementares e/ou alternativas que possuem evidências de não causar qualquer tipo de dano – SEGURANÇA (Do not harm!) e dentro dos padrões éticos.

Contudo, o que é aparente, principalmente nas mídias sociais, é uma inversão. Intensifica-se a promoção das práticas complementares e/ou alternativas como sendo o diferencial, o necessário para que um tratamento tenha sucesso.

“Dor na coluna? Saiba como [insira a terapia] pode ajudar!”

“Marque a sua consulta já! Fazemos ventosas, liberamos fascias, agulhamos qualquer músculo e de quebra você ainda recebe um estalido na coluna e a aplicação de uma bandagem funcional que manterá o seu alinhamento ideal, eliminando suas dores!”

Ai você questiona a efetividade, eficácia, mecanismo, validade, segurança de tais práticas e escuta a revolta daqueles que investiram tempo e dinheiro nessas formações, dizendo:

“… não podemos esperar evidências científicas para começar a trabalhar e atender pacientes.”

Imagens da campanha do COFFITO sugerindo o alinhamento da coluna vertebral utilizando terapias complementares e alternativas.

“… o método científico é falho e limitado para avaliar [insira a prática], sua filosofia milenar demonstra benefícios.”

A FISIOTERAPIA QUE TODOS NÓS QUEREMOS!”

O que deveria ser complementar e/ou alternativo, torna-se o “convencional” (mesmo sem qualquer evidência científica de eficácia, efetividade ou segurança) e a prática convencional da Fisioterapia é deixada pra lá, sendo substituída por práticas questionáveis financiadas com o dinheiro público.

Como diria Luciano Pires, foi “Nóis qui invertemo as coisa“.

Ao mesmo tempo que isso vai acontecendo, profissionais da Fisioterapia reclamam da desvalorização, da remuneração ruim e da falta de respeito quanto a profissão.

Tenho certeza que essa NÃO é a FISIOTERAPIA que TODOS queremos.

#fisioterapia #medicina #alternativa #complementar #integrativa #pics #semgroselha #ciencia #fisionapauta #eficacia #efetividade #seguranca #pratica #coffito


2 comentários

thiago nascimento · 03/05/2020 às 14:38

Olá, estou cursando o último ano de Fisiotereapia, um péssimo momento para estar finalizando uma graduação, não é mesmo? Hahaha…
Seu blog foi um achado muito interessante que difere do mainstream, onde a divulgação de cursos disso e daquilo, que prometem soluções milagrosas a um preço salgado, se torna o normal.
Ultimamente tenho procurado muitas respostas para algumas indagações que surgiram nesse período de finalização do curso, questionamentos que julgo importantes, que irão me ajudar a traçar minha conduta profissional, tais como:

“O que devo fazer para não me tornar um fisioterapeuta raso e impregnado de metodologias baseadas em pseudociências, que é pregado por professores da minha faculdade?
“Como tornar a minha prática clínica relevante e EFICAZ?!
Às vezes acho difícil distinguir uma prática convencional de uma integrativa. Essas questões têm me atormentado um pouco nessa quarentena. Apesar desse fato, acho uma boa hora para pensar e refletir esses dilemas, pois tempo é o que não falta.
Você teria alguma dica que possa clarear as minhas ideias? Que me ajude a separar o joio do trigo, seja livros, artigos ou sites que incentivam uma vertente científica na prática clínica.
Pra você o que funciona e o que não funciona?
Qual área você julga promissora?
Espero que você possa me esclarecer. Aprecio o seu trabalho, um abraço!!

    Heric Lopes · 04/05/2020 às 15:43

    Fala Thiago, blz?

    Que comentário massa! Perguntas excelentes! Sua reflexão nessa quarentena está sendo produtiva. Parabéns!

    Vamu lá…

    “O que devo fazer para não me tornar um fisioterapeuta raso e impregnado de metodologias baseadas em pseudociências, que é pregado por professores da minha faculdade?
    “Como tornar a minha prática clínica relevante e EFICAZ?!”

    Minha sugestão é: entenda, aprenda o que é Prática Baseada em Evidências (PBE). Isso é fundamental, independente da área de sua preferência. Faça o curso de PBE do Leonardo Costa (https://leocostapbe.com.br), segue ele no Instagram (@leo_costa_pbe), ele é sabe muito! Estou fazendo esse curso online durante a quarentena. Isso é algo que eu deveria ter feito muito tempo atrás.

    Isso ajudará você a separar o joio do trigo!

    “Pra você o que funciona e o que não funciona?”

    Pergunta difícil de responder essa… Diria que uma boa avaliação associada à educação e tratamentos ativos (movimento, exercícios) dentro do modelo BioPsicoSocial é o meu viés. Fazer o básico bem-feito! O resto é complemento, adjunto. Blz?

    “Qual área você julga promissora?”

    Foca naquilo que você gosta e tem maior interesse ao invés daquilo que pode ser promissor ou não.

    Espero ter ajudado!

    Obrigado!

    Gde Abraço.

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